Blogueiro que agora sou, também vou me entregar à confecção de listas, tão inúteis quanto variadas, tão egocêntricas quanto injustas, tão aleatórias quanto incoerentes.
Vai aqui a primeira, que dá título ao post:
1. Freedom 90 - George Michael
- Dá pra resumir num slogan. "Gays: fazendo os héteros dançarem desde que a música é música".
2. You Sexy Thing - Hot Chocolate
- Uma vez ouvido esse riff e seu corpo vai precisar dele de tempos em tempos.
3. Hot Stuff - Donna Summer
- Nem a Dilma Rousseff consegue passar imune a essa batida.
4. Can't Get You Out Of My Head - Kylie Minogue
- Um hino à atração física.
5. Touchy! - A-Ha
- Capaz de fazer suar mesmo se você estiver na Noruega!
6. Billie Jean - Michael Jackson
- O mestre no auge! E de quebra uma das melhores linhas de baixo de todos os tempos.
7. É Hoje - União da Ilha do Governador
- Melodia épica, letra alto astral e uma bateria capaz de fazer o Zagallo atravessar pulando o sambódromo.
8. I Predict a Riot - Kaiser Chiefs
- A clássica maneira britânica de fazer você pensar que pode fazer tudo enquanto não faz absolutamente nada.
9. Fa Fa Fa - Datarock
- A mais recente prova de que a mistura de um baixo esperto, uma bateria certeira, uma guitarra precisa e uma voz desmiolada sempre será explosiva.
10. Got to Give it Up - Marvin Gaye
- Se ela fosse estendida o suficiente, dava pra dançar quatro horas seguidas sem cansar.
11. Girls Just Wanna Have Fun - Cindy Lauper
- Nunca nada de ruim aconteceu quando garotas resolveram se divertir.
12. Dandalunda - Margareth Menezes
- O refrão diz: "Vamos todos resolver nossos problemas", na linguagem dos macacos Bonobo. Ou, simplificando, um convite baiano para orgias intermináveis.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Insensível
Nenhuma mulher deveria pintar as unhas dos pés, promulguei sem saber que ela estava toda esmaltada dentro daquelas botas de couro sintético. Era apenas um ressentimento surdo, que nascera em meio ao lodo de mágoas ancestrais e que eu saboreava sem guarnições, embriagado pelo prazer de me sentir vivo após tantas mortes. Eu teria preferido fazer a súplica justa: frugal sobremesa que ela resolvesse comer por gosto próprio. Mas o rancor se faz girar em betoneiras, aspira a concretudes, quer se mostrar coisa muito dura de ser engolida. Caminhávamos sobre calçada esquecida, rachada em outros caminhos, suja de solas que já haviam passado. Mas ela não era das que se importam por onde pisam. Vocês homens. Minha sobrinha de cinco anos já é toda colorida. Só o pai dela não gosta. E ficamos soterrados no mútuo betume. Só saímos de novo após dias de silêncio e culpa. Você sumiu, ela arriscou de sandálias. Suspirei. Que tal viajar comigo à praia? Não posso. Se você quiser, eu não pinto mais as unhas. Eu não poderia te pedir isso. Eu não me importo. Nem eu.
terça-feira, 28 de outubro de 2008
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
O mau ator
Se bem me lembro, a atuação foi séria – se não pelas intenções, ao menos se considerarmos que os dois não riram uma só vez e tampouco conseguiram ficar à vontade um instante sequer. Mas, curtida pelo sol diário, após tantas luas, a cena se tornou engraçadíssima, sobretudo para mim, que estava lá.
O restaurante, visto por olhos com menos de 25 anos de idade, era sórdido: a penumbra, em vez de descer como suave manta sobre cada casal, servia para tentar esconder a pintura cheia de rugas, as toalhas de mesa muito usadas e as cores desbotadas dos freqüentadores. Mais escuro eu me sentia porque ela tinha apagado a luz por trás dos olhos verdes, que para mim já não faiscavam. Sem destaque, imersos no cenário, nós calávamos os diálogos. Ela cadeira dum lado, eu do outro, e um rio – repleto de corredeiras, com a foz iminente e a distância entre margens tão larga que nenhuma mesa podia dar conta – passando no meio. A coisinha de 1,60m e suas razões um monólito só, muito além de altura que eu pudesse ombrear.
Prezo silêncios. Mas apenas se forem meus. Como ela dava tom de represália àquele grito sufocado, chamei o garçom e pedi-lhe que me recitasse as indicações do cardápio. Consegui que o constrangimento se dividisse por três. Mas ela, mexendo apenas um músculo dos lábios, passou da indiferença concentrada no vazio sonoro para o desprezo muito agudo de um sorriso. O terceiro, de súbito um amigo solidário, ao me ver afundar, vítima de uma vingança emocional, lançou-me os olhos como se fossem corda trançada com toda a piedade reunida em vinte anos de trabalho noturno. Era pouco para me dragar acima da resignação. Pedi duas taças de Porto. E o ininterrupto consentimento que se seguiu a isso deixou entreouvir a música de fundo: um piano de teclas alvíssimas arrastava o romantismo tuberculoso por um tapete vermelho, entre pausas breves e notas cada vez mais semifusas.
As minúsculas taças de vinho, colocadas nos extremos daquela mesa intransponível, iluminaram de vez a circunstância: o preço era muito alto por recompensa tão diminuta. Consciente, enfim, minhas opções se restringiram diante da nossa protagonista. Eu era coadjuvante. E não adiantaria prolongar falas, sapatear em cena ou tentar despertar nela qualquer sentimento que não estivesse programado. O roteiro era da mocinha.
Deslocado, tomei para mim o silêncio. E apenas sinalizei a conta. No carro, a pressão do não dizer nada aumentou. Baixei os vidros, coloquei o rosto para fora por três segundos e senti a bofetada de gelo doer antes pelo que viria depois. Seguimos até a casa dela como se Truffaut olhasse por nós. Até pensei em asfaltar caminho para o vilão, e atirar aquela bolha de vácuo motorizada por cima da ponte. Mas eu já era outro. E comecei a declarar palavras que me vieram à boca como se fossem texto que eu já tivesse lido. Sem me dar por mim, contei a ela das emoções que me tomaram quando a vi pela primeira vez. Enumerei suas qualidades sem usar adjetivos, disfarçando os elogios em uma sintaxe simples o suficiente para dar-lhe a certeza de que aquilo era a coisa mais sensata que ela já ouvira na vida. Pedi desculpas pelos meus erros, com ênfase nos que eu cometera sem perceber. E terminei com o epitáfio ideal para uma relação que já nascera morta, mas que a mulher fizera questão de assinar o óbito. “Nunca vou me perdoar por ter te perdido”. Fiz esforço para evitar o cinismo. Meu sorriso coçava comédia. Deve ter sido a primeira vez que a surpreendi. Mas ainda assim ela continuou impassível. Me deu um beijo no rosto como quem apaga um telefone da agenda. E, com uma batida de porta, o escuro voltou. Demorei muito tempo para conseguir rir depois daquilo.
O restaurante, visto por olhos com menos de 25 anos de idade, era sórdido: a penumbra, em vez de descer como suave manta sobre cada casal, servia para tentar esconder a pintura cheia de rugas, as toalhas de mesa muito usadas e as cores desbotadas dos freqüentadores. Mais escuro eu me sentia porque ela tinha apagado a luz por trás dos olhos verdes, que para mim já não faiscavam. Sem destaque, imersos no cenário, nós calávamos os diálogos. Ela cadeira dum lado, eu do outro, e um rio – repleto de corredeiras, com a foz iminente e a distância entre margens tão larga que nenhuma mesa podia dar conta – passando no meio. A coisinha de 1,60m e suas razões um monólito só, muito além de altura que eu pudesse ombrear.
Prezo silêncios. Mas apenas se forem meus. Como ela dava tom de represália àquele grito sufocado, chamei o garçom e pedi-lhe que me recitasse as indicações do cardápio. Consegui que o constrangimento se dividisse por três. Mas ela, mexendo apenas um músculo dos lábios, passou da indiferença concentrada no vazio sonoro para o desprezo muito agudo de um sorriso. O terceiro, de súbito um amigo solidário, ao me ver afundar, vítima de uma vingança emocional, lançou-me os olhos como se fossem corda trançada com toda a piedade reunida em vinte anos de trabalho noturno. Era pouco para me dragar acima da resignação. Pedi duas taças de Porto. E o ininterrupto consentimento que se seguiu a isso deixou entreouvir a música de fundo: um piano de teclas alvíssimas arrastava o romantismo tuberculoso por um tapete vermelho, entre pausas breves e notas cada vez mais semifusas.
As minúsculas taças de vinho, colocadas nos extremos daquela mesa intransponível, iluminaram de vez a circunstância: o preço era muito alto por recompensa tão diminuta. Consciente, enfim, minhas opções se restringiram diante da nossa protagonista. Eu era coadjuvante. E não adiantaria prolongar falas, sapatear em cena ou tentar despertar nela qualquer sentimento que não estivesse programado. O roteiro era da mocinha.
Deslocado, tomei para mim o silêncio. E apenas sinalizei a conta. No carro, a pressão do não dizer nada aumentou. Baixei os vidros, coloquei o rosto para fora por três segundos e senti a bofetada de gelo doer antes pelo que viria depois. Seguimos até a casa dela como se Truffaut olhasse por nós. Até pensei em asfaltar caminho para o vilão, e atirar aquela bolha de vácuo motorizada por cima da ponte. Mas eu já era outro. E comecei a declarar palavras que me vieram à boca como se fossem texto que eu já tivesse lido. Sem me dar por mim, contei a ela das emoções que me tomaram quando a vi pela primeira vez. Enumerei suas qualidades sem usar adjetivos, disfarçando os elogios em uma sintaxe simples o suficiente para dar-lhe a certeza de que aquilo era a coisa mais sensata que ela já ouvira na vida. Pedi desculpas pelos meus erros, com ênfase nos que eu cometera sem perceber. E terminei com o epitáfio ideal para uma relação que já nascera morta, mas que a mulher fizera questão de assinar o óbito. “Nunca vou me perdoar por ter te perdido”. Fiz esforço para evitar o cinismo. Meu sorriso coçava comédia. Deve ter sido a primeira vez que a surpreendi. Mas ainda assim ela continuou impassível. Me deu um beijo no rosto como quem apaga um telefone da agenda. E, com uma batida de porta, o escuro voltou. Demorei muito tempo para conseguir rir depois daquilo.
Ciclo
Depois de longa pausa, volto a escrever por aqui. A partir de agora, deixo as frases sem efeito, as fraturas expostas e as crônicas um pouco de lado para me dedicar a pequenos textos ficcionais. Aproveitem e usem os comentários para as críticas, esses quitutes!
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Sexo frágil
"A mesma mulher que chora por ter batido o carro é capaz de estraçalhar um coração sem derramar uma lágrima."
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Presente de grego
Ah, as Olimpíadas! A cada quatro anos, é a mesma festa: abertura deslumbrante; matérias sobre a união dos povos; musas que só são musas entre Edinancis, Martas e as donzelas do halterofilismo; russos dopados; a queda do império americano; o discurso empolgado dos remadores, ciclistas, esgrimistas, atiradores e mesatenistas brasileiros – felizes por terem superado por uma posição o 28º lugar dos Jogos passados –; a marra da Juliana Veloso; as riquezas culturais do país-sede; os inúmeros e saudáveis bronzes do nosso país tropical; o povo brasileiro mais preocupado em saber se o Corinthians ganhou do Bambala ou se o Flamengo vai mesmo contratar o Zé das Couves – que está ganhando bem no Chipre, mas é rubro-negro desde criança –; os caras do basquete e a Rebeca Bombão vendo tudo pela TV; ex-atletas, alguns ainda em atividade, comentando na Globo; o handebol disputando o título de esporte mais chato do mundo com o hóquei sobre grama e o softbol; a imprensa dizendo que, dessa vez, é capaz de sair o inédito ouro do futebol; o vôlei feminino derrotado no tie break depois de estar vencendo por 2 sets a 0 e 24 a 11 na terceira etapa; e as inúmeras, variadas, multicoloridas, inesperadas e unissex amareladas do Brasil em todas as modalidades. Eu gosto demais, assumo.
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